OZIAS FILHO: RUAS DE LUZ
Como me sucede con otros tantos sitios del mundo en los que jamás estuve, mi relación con Portugal es sólo libresca. Si bien lo que los libros dicen no es asunto menor, al contrario, nada iguala el hecho de estar allí, de respirar el aire del lugar, de frecuentar sus personas y calles. Portugal es, para mí, una porción de la tierra –pequeña comparada con el inmenso país donde habito- que hace mucho descubrí en alguno de los viejos atlas que leía en mi niñez, y en ese mapa nombres que alimentaron mi imaginación: Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Évora… Y, más tarde, otros nombres: Enrique el Navegante, Vasco da Gama, Gil Vicente, Luís de Camões, Fernando Pessoa… Pero mi Portugal es asimismo otras cosas, algunos objetos que atesoro: una botella de vino rosado Lancers, una fotografía de Ribeira Grande, en la isla de São Miguel, un disco de Amália Rodrigues.
Desde hace algún tiempo mantengo contacto con escritores y pintores de Portugal. Esta relación se dio –y da- de un modo tan natural como afectuoso. Y a manera de nuevo hito en el diálogo trasatlántico aquí y ahora presento la poesía de Ozias Filho, brasilero por nacimiento y portugués por adopción, además de poeta, periodista y fotógrafo, encargado de la Editora Vozes. De Ozias tengo en mi biblioteca un libro, Páginas Despidas, que leí paciente y trabajosamente –no soy diestro en otros idiomas y ni siquiera lo soy del todo en el mío-.
Dejo, como siempre, a los lectores la tarea de evaluar lo aquí reproducido.
© Carlos Barbarito
paraísos mínimos
sonhos que querem
o beijo, o toque do vinho
na casa da aldeia urbana
o Cristo
dos paraísos mínimos
onde a saudade nítida
a língua estrangeira
o fado que não é samba
falam à alma quase
lusitana
feliz o homem que nasce
vive e morre na sua terra
De Poemas do Dilúvio
apocalipse
é preciso
implodir a palavra
desconstruir
o edifício
libertar
o silêncio
De Páginas Despidas
bailarinas
essas bailarinas que dançam
no meu trajecto de comboio
em todas as manhãs
estão nuas e são nuas
e bailam ao sabor das intempéries
e não se constipam
mas quando morrem
simplesmente morrem
e há lirismo na sua morte
porque caem de pé
e são etéreas.
Será que existe um céu das árvores?
Inédito
casa
a casa com desenhos pueris
vive nos dedos de uma criança
mas esta já não é a minha casa
a minha casa desenha-se com cheiros
pequenos destroços de homens e mulheres
simples, que moram e morrem nela
a minha casa alberga
violência à porta e beleza à janela
(cartão postal estranho: sangue e arco íris)
mas é aí que vivo, divido, diviso
uma cidade de águas e tantas vezes duvido
que o pesadelo também faz parte do sonho
apesar disso a minha casa tem uma cara feliz
e uma melancolia doce escondida
no silêncio das suas ruas de luz
Inédito
génesis
e no princípio
era o silêncio
e Deus
criou o verbo
e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem
páginas despidas II
a Iacyr Anderson Freitas
era então a memória das portas
abertas
à espera das estações
o outono e seus mortos caídos
no fim na batalha
o coração suspenso
no Inverno das emoções vestidas
o amor possível nos glaciares
na dança embalada de azul
a primavera e o despertar do gelo
estalando em mil flores de poesia
o verão e os corpos levitados
no engodo da cerveja
na sedução volátil dos suores
era então a memória das portas
abertas
acordando lendas
acasalando sílabas
tecendo enigmas
na alma incompleta
e no corpo concreto
decepado
tudo fora de portas
aguardando
levianas histórias
de contradição
vermelhos amarelos e azuis
o intraduzível
de toda uma gama de cinzas
no espelho
à captura do voo único
do lírico de cada unicórnio
escondido em raro diamante:
o martelo
o esboço
a imagem
que ganha o contorno
sob a maquilhagem
a sombra
que na cal da parede
traduz a árvore
de imateriais sumos
e cheiros
desalojados do limbo
reminiscências sem página
só então a memória das portas
abertas
cerzeia tramas
do alto da torre difusa
vértebras
inundadas de dor
amores
no horizonte
parcos vestígios de aventura
na página quase escrita página
o repositório
só então a memória das portas
abertas
preserva comportas
no ténue fio da sanidade
reabilita a nossa atomicidade
organiza roteiros
aos desconhecidos da casa:
às molduras
ao pó
ao éter bordado nos tecidos
aos cheiros do ter-sido
aos objectos
que descansam na árvore
sem rosto
só então a memória das portas
abertas
revela a máquina
a correnteza
o animal
retira o véu dos retratos
destitui o deus e o homem futuro
eis o passado
o exacto instante
que hoje se desvela
De Páginas Despidas
© Ozias Filho |