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Las obras publicadas en Los Noveles son propiedad intelectual de sus autores.
Revista de literatura Los Noveles © 2001-2006
ISSN 1547-8114

 

 

 

OZIAS FILHO: RUAS DE LUZ

Como me sucede con otros tantos sitios del mundo en los que jamás estuve, mi relación con Portugal es sólo libresca. Si bien lo que los libros dicen no es asunto menor, al contrario, nada iguala el hecho de estar allí, de respirar el aire del lugar, de frecuentar sus personas y calles. Portugal es, para mí, una porción de la tierra –pequeña comparada con el inmenso país donde habito- que hace mucho descubrí en alguno de los viejos atlas que leía en mi niñez, y en ese mapa nombres que alimentaron mi imaginación: Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Évora… Y, más tarde, otros nombres: Enrique el Navegante, Vasco da Gama, Gil Vicente, Luís de Camões, Fernando Pessoa… Pero mi Portugal es asimismo otras cosas, algunos objetos que atesoro: una botella de vino rosado Lancers, una fotografía de Ribeira Grande, en la isla de São Miguel, un disco de Amália Rodrigues.

Desde hace algún tiempo mantengo contacto con escritores y pintores de Portugal. Esta relación se dio –y da- de un modo tan natural como afectuoso. Y a manera de nuevo hito en el diálogo trasatlántico aquí y ahora presento la poesía de Ozias Filho, brasilero por nacimiento y portugués por adopción, además de poeta, periodista y fotógrafo, encargado de la Editora Vozes. De Ozias tengo en mi biblioteca un libro, Páginas Despidas, que leí paciente y trabajosamente –no soy diestro en otros idiomas y ni siquiera lo soy del todo en el mío-.

Dejo, como siempre, a los lectores la tarea de evaluar lo aquí reproducido.

 

© Carlos Barbarito


 

paraísos mínimos

 

sonhos que querem

o beijo, o toque do vinho

na casa da aldeia urbana

 

o Cristo

dos paraísos mínimos

 

onde a saudade nítida

a língua estrangeira

o fado que não é samba

falam à alma quase

lusitana

 

feliz o homem que nasce

vive e morre na sua terra

 

De Poemas do Dilúvio

 

apocalipse

 

é preciso

implodir a palavra

 

desconstruir

o edifício

 

libertar

o silêncio

 

De Páginas Despidas

 

bailarinas

 

 

essas bailarinas que dançam

no meu trajecto de comboio

em todas as manhãs

estão nuas e são nuas

e bailam ao sabor das intempéries

e não se constipam

mas quando morrem

simplesmente morrem

e há lirismo na sua morte

porque caem de pé

e são etéreas.

 

Será que existe um céu das árvores?

 

Inédito

 

casa

 

a casa com desenhos pueris

vive nos dedos de uma criança

mas esta já não é a minha casa

 

a minha casa desenha-se com cheiros

pequenos destroços de homens e mulheres

simples, que moram e morrem nela

 

a minha casa alberga

violência à porta e beleza à janela

(cartão postal estranho: sangue e arco íris)

 

mas é aí que vivo, divido, diviso

uma cidade de águas e tantas vezes duvido

que o pesadelo também faz parte do sonho

 

apesar disso a minha casa tem uma cara feliz

e uma melancolia doce escondida

no silêncio das suas ruas de luz

 

Inédito

 

génesis

 

e no princípio

era o silêncio

 

e Deus

criou o verbo

 

e aprisionou para sempre

o silêncio dentro do homem

 

páginas despidas II

 

a Iacyr Anderson Freitas

 

 

era então a memória das portas

abertas

 

à espera das estações

 

o outono e seus mortos caídos

no fim na batalha

 

o coração suspenso

no Inverno das emoções vestidas

 

o amor possível nos glaciares

na dança embalada de azul

 

a primavera e o despertar do gelo

estalando em mil flores de poesia

 

o verão e os corpos levitados

no engodo da cerveja

na sedução volátil dos suores

 

 

era então a memória das portas

abertas

 

acordando lendas

acasalando sílabas

tecendo enigmas

na alma incompleta

e no corpo concreto

decepado

 

tudo fora de portas

aguardando

levianas histórias

de contradição

 

vermelhos amarelos e azuis

o intraduzível

de toda uma gama de cinzas

no espelho

 

à captura do voo único

do lírico de cada unicórnio

escondido em raro diamante:

 

o martelo

o esboço

a imagem

que ganha o contorno

sob a maquilhagem

 

a sombra

que na cal da parede

traduz a árvore

de imateriais sumos

e cheiros

desalojados do limbo

 

 

reminiscências sem página

 

 

só então a memória das portas

abertas

 

 

cerzeia tramas

do alto da torre difusa

 

vértebras

inundadas de dor

 

amores

no horizonte

 

parcos vestígios de aventura

na página quase escrita página

 

o repositório

 

só então a memória das portas

abertas

 

preserva comportas

no ténue fio da sanidade

reabilita a nossa atomicidade

organiza roteiros

aos desconhecidos da casa:

 

 

às molduras

ao pó

ao éter bordado nos tecidos

aos cheiros do ter-sido

aos objectos

que descansam na árvore

sem rosto

 

 

só então a memória das portas

abertas

 

 

revela a máquina

a correnteza

o animal

 

retira o véu dos retratos

destitui o deus e o homem futuro

 

eis o passado

 

o exacto instante

que hoje se desvela

 

De Páginas Despidas

 

© Ozias Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Barbarito | Argentina, 1958 | Poeta y bibliotecario. Su trabajo comprende libros de poesía y de crítica de artes plásticas como: Teatro de lirios, Éxodos y trenes, Acerca de las vanguardias, Bestiario de amor, Desnuda materia y Puntos de fuga. Su obra ha sido traducida al inglés y portugués y aparece en diversas antologías. Recientemente publicó el poemario La orilla desierta. Página web: Carlos Barbarito
Ozias Filho | Brasil, 1962 | Nació en la ciudad de Río de Janeiro y reside en Portugal desde hace catorce años. Trabajó para Jornal O Globo, O Primeiro de Janeiro, Revista Lusofonia, entre otros medios escritos. Ideó y protagonizó, entre 2002 y 2004, en la Casa da América Latina, los proyectos Uma Hora com os Poetas, Noites en Pasárgada y Neruda com Amor. Es editor de la Colecção Pasárgada y responsable de Editora Vozes. Ha publicado los libros Poemas do Dilúvio y Páginas Despidas.